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Texto extraido de Dreyer, Gerusa. Contribuição ao estudo da filariose bancroftiana em Recife- Brasil. Rio de Janeiro, FIOCRUZ, 1997. 87f. Tese (Doutorado em Helmintologia/Biologia Celular e Molecular) - Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, 1997. No final do ano de 1973, ainda como estudante de medicina, conheci o Professor Amaury Coutinho (1973-1974) como pesquisador dedicado à esquistossomose. Nessa época, a filariose parecia estar nos níveis mais subconscientes da sua motivação. Em 1984, já integrante do quatro da FIOCRUZ, iniciei uma revisão da literatura sobre filariose linfática. Foi a partir daí que comecei a me deslumbrar com os trabalhos, pioneiros, do Professor Amaury Coutinho, relacionados com a forma mais rara da doença: a eosinofilia pulmonar tropical. No início, em 1948, a etiologia filarial dessa forma clínica ainda não tinha sido estabelecida. A partir da revisão, foram consumidos mais de seis meses de trabalho confeccionando um ambicioso projeto, composto por doze subprojetos, baseados nas principais lacunas da literatura em relação à doença, tanto a nível mundial, quanto a de nossa região. Com isso, foi instituído o Subprograma de Filariose do Departamento de Parasitologia do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CPqAM) em agosto de 1986. Mesmo iniciante na pesquisa, e com apenas um ano de trabalho, em setembro de 1987, juntamente com os companheiros de Equipe, ousamos promover o I Simpósio Nacional em Filariose Bancroftiana. Por tudo o que representava, o Professor Amaury não poderia deixar de fazer parte intrínseca daquele evento. Nessa época, fui encontrá-lo na sua residência, aposentado, apresentando sintomatologia parksoniana e em uso de muitos medicamentos. Seus olhos brilhavam com o convite. Sua força embutida parecia ter aflorado naquele momento, superficializando a filariose para o consciente. E fez, sem dúvidas, a melhor apresentação daquele simpósio. Foi convidado posteriormente pela FIOCRUZ para ser Consultor Científico do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães em Esquistossomose e em Filariose. Pouco a pouco foi se estabelecendo uma competição extremamente salutar entre essas duas endemias. E a filariose foi ganhando terreno. Quanto mais trabalhava e se motivava menores as necessidades de medicamentos e não mais existia o parksionismo. A sua alma se encheu de juventude. Incansável e cheio de força, lutou como nunca para promover o nosso Subprograma, sendo para nós uma espécie de “abre alas”, pois, dada a falta de titulação dos membros da nossa equipe, não éramos depositário de credibilidade no nosso país. Tive o privilégio de conviver muito de perto com esse homem justo, dotado de uma força de trabalho invejável, e um obediente, rigoroso, dos preceitos da ética, para mim o seu traço mais marcante. Era altivo quando a situação exigia. Sabia, no entanto, como ninguém, passar a mão nas nossas cabeças nos momentos de sofrimento, pedir desculpas quando necessário e parabenizar por algo conquistado com competência e garra. Nesse relacionamento que não era feito só de calmaria, as discordâncias serviam para um crescimento mútuo. Em meu nome, e em nome de todos que fizeram e fazem parte do Subprograma de Filariose, registramos o sentimento de privilegiados pelo convívio com o amigo e mestre Amaury Coutinho, no momento de sua vida em que vivia a sua época plena de sabedoria. A orientação recebida não se limitou ao desenvolvimento de um trabalho de tese, foi a orientação para a vida, para produzir as mudanças quando necessárias e, para apreciar os momentos mágicos do dever cumprido com ética e amor. Ensinamentos como esses não podem e nem devem ser agradecidos. Devem sim ser aprendidos e colocados em prática para que possamos ser merecedores deles. |
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Gerusa Dreyer |
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